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Ato de desespero chamou a atenção e comoveu

O que poderia ter levado uma mãe a gravar um vídeo com a própria filha (bebê de dois anos) convidando-a para “se matar” e pedindo que se despedisse do pai? Em que estado emocional estaria uma pessoa que chega ao ponto de gravar as cenas dramáticas em que decide dirigir o próprio carro (onde estão ela e a filha) para debaixo de uma carreta, carregada com uma máquina que pesa mais de 10 toneladas?

 

Na tarde da última terça-feira, 18, um vídeo chocante circulou nas redes sociais. Nele, a mulher de 34 anos, faz uma gravação juntamente com sua filha de 02 anos, que estava na cadeirinha do assento traseiro do veículo, afirmando que ambas iriam se matar.

A mulher diz para a filha “vamos se matar?” e ela responde “sim”. Na sequência a mãe pede para criança se despedir do seu pai, dizer que era a última vez que ele estava a vendo. A criança diz “te amo papai” e a mãe responde “Tchau papai. Adeus, até nunca mais” e finaliza dizendo “tá, então vamos lá se matar?”.

Após o vídeo, o veículo que elas estavam bateu de frente com uma carreta carregada com uma retroescavadeira na BR-386, em Lajeado. De acordo com familiares, a mulher foi transferida para o Hospital de Pronto-Socorro de Canoas, segue internada na UTI e passou por procedimentos cirúrgicos, dentre eles a reconstrução do rosto, mas encontra-se estável. A criança sofreu lesões leves, passou por atendimento médico, já recebeu alta e está sob os cuidados da avó paterna.

Diante do teor do vídeo gravado, a mulher já teve prisão decretada. De acordo com a delegada Shana Luft Hartz, de Lajeado, por mais que o estado de saúde da mulher seja crítico, o mandado de prisão já foi emitido, e ela será indiciada pelo crime de tentativa de homicídio da filha.

A mulher é natural de Anta Gorda, já morou por um período curto em Arvorezinha e tem parentes e conhecidos em toda a região. Atualmente ela residia com seus dois filhos nos fundos da casa de seus pais, em uma pequena casa emprestada, na cidade de Cruzeiro do Sul.

 

Carreta envolvida no acidente é de Anta Gorda

A carreta com que a mulher colidiu frontalmente, com placas de Anta Gorda, era conduzida pelo antagordense Valdemar Dutra, de 42 anos. Ele trafegava com a carreta carregada com um trator de esteira pela BR-386, quando avistou de longe o Fiat Uno dirigido pela mulher, que ao mesmo tempo em que dirigia, filmava tudo com o celular próximo ao para-brisa.

Segundo Dutra, atrás dela vinha um casal, que também acabou se envolvendo no acidente. Ele relata que a mulher bateu na carreta e depois no veículo do casal. Logo ele saiu às pressas prestar socorro, já que a criança parecia estar bem, apesar dos ferimentos, medo e estado de choque.

“Eu me apavorei quando vi aquela criança nos apuros daquele jeito, só queria ajudar”, conta Dutra, que disse estar muito abalado com toda a situação. “Na noite passada não consegui dormir, fechava os olhos e via a cena, aquele carro invadindo a pista e vindo para entrar debaixo da carreta, fiz tudo o que esteve ao meu alcance para tirar, sai para o acostamento, mas ela ainda bateu no pneu da carreta e no rebote, voltou e bateu no carro do casal que vinha atrás”, relatou.

A carreta que pertence a uma empresa de terraplanagem de Anta Gorda, estava carregada com uma retroescavadeira que pesa mais de 10 toneladas e era conduzida por Valdemar, que é motorista há mais de 15 anos. Ele conta que, em todo esse tempo de estrada, já sofreu acidentes, porém, que é a primeira vez que presenciou algo tão grave e cruel.

Valdemar e os tripulantes do outro veículo envolvido no acidente não sofreram ferimentos.

 

Prima da condutora do veículo acredita ter sido um momento de desespero

De acordo com a prima da mulher que gravou o vídeo, ela é natural de Anta Gorda, morou um tempo em Arvorezinha e há aproximadamente dois anos, ela estava morando em Cruzeiro do Sul, nos fundos da casa dos pais dela, após separar-se do pai da criança, com quem mantinha contato em razão da filha.

V.A., que pediu para não ser identificada, atualmente reside em Arvorezinha, e relata que sua prima é pessoa muito próxima, pois moravam frente a frente em Cruzeiro do Sul, até pouco tempo. Segundo V.A, ela era uma mãe muito presente e carinhosa com seus filhos, e que sempre lutou muito por eles. “Sei que ela passou por muita dificuldade, ela teve que vender coisas dela para levar comida para casa, para os filhos. A avó, mãe dela, ajudou muito ela com as crianças, mas ela nunca desistiu de bater de porta em porta em busca de emprego, e agora fazia cerca de um mês que ela estava trabalhando em um mercado em Lajeado”, relata.

A prima disse que já teve que socorrer a condutora do veículo devido a crises de nervos em razão das dificuldades que ela vinha enfrentando. “Acredito que este vídeo ela tenha feito num momento de grande desespero. Eu também fiquei muito chocada por conhecer ela e saber do carinho que ela tinha com os filhos”, relata.

Além disso, ela relatou que o pai da criança vinha enfrentando problemas pessoais, e que em razão disso sua prima, por preocupar-se com a segurança e bem-estar da filha, não a deixava sozinha, acompanhando sempre as visitas paternas.

De acordo com ela, a família paterna teria dificuldades para permanecer com a criança, e que a avó materna seria a melhor pessoa para cuidá-la, que que tem proximidade com a criança e já fazia isso.

 

Repercussão de grandes proporções

O vídeo e o caso ocorrido na terça-feira, repercutiram de forma muito intensa em redes sociais diversas, entre elas grupos de WhatsApp, Facebook, Instagram, veículos de comunicação e entre as pessoas que tiveram acesso as informações.

Até em um perfil de fofocas no Instagram, com mais de seis milhões de seguidores, o vídeo foi veiculado.

 

Psicóloga fala sobe a importância da saúde mental

Atos de desespero, violência contra crianças, mortes em série de indefesos, tudo isso, tem chamado muito atenção e gerado desconforto e mal-estar social, além de muito sofrimento e dor, além de fomentar muito julgamento precipitado e ainda mais ódio e hostilização.

Mas compreender que para toda a ação existe uma causa e tentar decifrá-la é um exercício que poucos fazem. A psicóloga Patricia Ferri fala um pouco sobre como o momento atual, o ambiente em que as pessoas vivem, as dificuldades enfrentadas, a dependência química e sobretudo os transtornos mentais tem afetado as pessoas, sendo que muitas vezes os problemas só são identificados quando algo muito grave acontece de fato.

A psicóloga destaca que a morte violenta de crianças é um crime chocante em todas as suas implicações. É muito difícil analisar um caso como esse sem conhecer de perto a realidade das pessoas envolvidas.

“Ao ver a notícia, vários sentimentos vêm à tona: tristeza, raiva, questionamento e muito julgamento. Por que essas atrocidades acontecem?”, questiona.

“Uma mãe em sã consciência jamais mataria um filho, eu diria que uma pessoa saudável jamais tiraria a própria vida. E é sobre isso que precisamos pensar. Sem dúvidas essa mãe estava doente, precisando de socorro”, afirmou Patricia, questionando: “Você teria coragem para se matar e matar seu filho?”.

“Nos últimos dias temos acompanhado nas mídias muitas atrocidades contra crianças, como por exemplo na cidade de Saudades, em Santa Catarina, onde ocorreu uma chacina na escola, e também o próprio caso do menino Henry, que foi morto pelo padrasto. Impossível não se comover com histórias como essas. Crianças indefesas, que deveriam estar brincando e desfrutando da vida, acabam sendo mortas por adultos insanos”, argumentou.

Para Patricia, este é o principal motivo para se falar e levar muito a sério as questões relacionadas à saúde mental. “É importante falarmos em saúde mental, porque muitas vezes tem-se a falsa ideia que para estas atrocidades acontecerem tem que existir uma doença mental: o usuário de drogas ou os ditos “loucos.”. E isso não é verdade. Existem muitas pessoas com quem convivemos, inclusive, que podem ter transtornos de personalidade e passarem ‘despercebidas’. Pessoas que trabalham, tem famílias e possuem uma rotina, mas que por dentro sofrem e muito”, reforçou.

A saúde mental muitas vezes é banalizada, porém qualquer pessoa, a qualquer momento, pode vir a ter um sofrimento mental e ter pensamentos suicidas e até homicidas. “Por isso, precisamos falar sobre saúde mental, entender a importância da nossa saúde mental e até mesmo de que forma ajudar pessoas que precisam de ajuda”, finalizou Patrícia.

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