Pesquisa mostra a evolução de setores industriais high-tech e suas implicações no desenvolvimento econômico

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Análise apresentada mostra que indústria de transformação vem perdendo espaço na economia do RS e do Brasil - Foto: Laiz Flores / Ascom SPGG

Melhora no desempenho e aumento da participação de setores de maior intensidade tecnológica contribuiriam para retomar dinamismo

 

Assim como se verifica no Brasil, os setores high-tech da indústria de transformação do Rio Grande do Sul – que têm maior intensidade de esforço tecnológico, melhores níveis de produtividade e média salarial mais elevada – tiveram redução de participação na economia.

Respondendo por 22% dos empregos das empresas de manufatura, a indústria high-tech tem importante influência nos ganhos de produtividade e no crescimento econômico do RS. De forma semelhante, a desindustrialização vivida nos últimos anos também impacta as receitas estaduais. Em 2014, a indústria de transformação respondeu por 14,6% do PIB e por 45% da arrecadação de impostos. Em 2017, a participação da manufatura no PIB gaúcho caiu para 13,9%.

Esses diagnósticos fazem parte de estudo inédito, divulgado nesta sexta-feira (9/10), sobre o desempenho ao longo de uma década (entre 2007 e 2017) da indústria high-tech gaúcha. Elaborada pelo pesquisador Rodrigo Morem da Costa, do Departamento de Economia e Estatística (DEE), vinculado à Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão (SPGG), a análise mostra que a indústria de transformação vem perdendo espaço na economia (PIB) do RS e do Brasil, o que também se manifesta nos postos de trabalho: o setor era responsável por 25,8% dos empregos em 2007, proporção que caiu para 21,2% passados dez anos.

A pesquisa buscou reunir um amplo conjunto de indicadores que permitisse analisar a importância e o desempenho da indústria de transformação do RS, além de se esforçar na avaliação para diferenciar os vetores estruturais, associados à competitividade das empresas, daqueles mais conjunturais, fruto da recente crise econômica do país no período 2014-2017.

“O estudo complementa de forma extremamente positiva o estudo publicado pelo governo, em março, sobre indicadores de capacitação na área de tecnologia. São dados muito úteis como subsídio e um norte para planejarmos ações de inovação e aprimoramento da economia do nosso Estado”, afirmou o secretário de Inovação, Ciência e Tecnologia, Luís Lamb.

Dentro da estrutura industrial gaúcha, os segmentos com maior esforço tecnológico viram aumentar, também a partir de 2014, seu distanciamento, em termos do chamado VTI (Valor da Transformação Industrial), para o conjunto de setores tidos como low-techs (menor intensidade tecnológica). De modo simplificado, o VTI representa a diferença entre todas as receitas líquidas industriais (mais estoques) e os custos operacionais da fábrica.

A indústria high-tech teve declínio em sua participação no VTI da manufatura, de 37,1% em 2013 para 30,5% em 2017. De outro lado, os segmentos low-techs, com tecnologias relativamente maduras, responderam em 2017 por quase 80% dos empregos.

Busca por maior competitividade

Além de retratar a importância dos setores industriais high-tech na manufatura estadual, bem como seu desempenho neste período, o estudo apontou algumas das principais causas para a estagnação na produtividade da indústria de transformação. A diminuição do desempenho na inovação, o baixo esforço em pesquisa e desenvolvimento (P&D), a queda nos investimentos em máquinas, equipamentos e software para implementar inovações e as próprias limitações nas capacitações tecnológicas das empresas ganharam destaque no diagnóstico.

Inclusive, “essas dificuldades da indústria de transformação observadas na área da inovação, somadas à deterioração do ambiente de negócios na crise, por certo, também contribuem para limitar a atualização tecnológica das empresas, criando defasagem, assim como para atrasar a adoção de tecnologias da Indústria 4.0, podendo vir a reduzir sua competitividade se esta tendência for mantida”, observou o pesquisador Rodrigo Morem da Costa.

Na avaliação do secretário da SPGG, Claudio Gastal, o desafio que se apresenta ao Estado e aos empreendedores gaúchos está em reverter esta defasagem tecnológica. “O tema ‘novas tecnologias’ está presente desde que começamos a pensar as ações do nosso governo. Consta, inclusive, em nosso Mapa Estratégico. Em um momento como o que vivemos, de pandemia e necessidade de respeito ao distanciamento, esse assunto se mostra mais relevante ainda. Por isso, é fundamental estimular a pesquisa em busca da inovação, o que o governo vem buscando através de ações estratégicas. O grau de competitividade das nossas empresas e, por consequência direta, a retomada do crescimento econômico dependem diretamente do quanto vamos avançar nesta área”, destacou Gastal.

Pauta de exportações mudou

Um dos reflexos desta evolução do desempenho da indústria se observa na balança comercial. No comércio internacional, as exportações gaúchas no período 2007-2017 tiveram uma relativa estabilidade, oscilando no intervalo entre US$ 17 bilhões e US$ 20 bilhões em valores constantes de 2017.

Porém, houve uma alteração significativa nos embarques, a principal foi o expressivo aumento de valor e de participação da venda de commodities agrícolas, sobretudo de grãos (soja). “A pauta de exportações exibiu tendência de reprimarização e de menor diversificação de produtos, com maior dependência de produtos originários da agropecuária, in natura ou processados. Cabe observar que é positivo que o valor exportado pela agropecuária e pela fabricação de alimentos tenha crescimento. A questão reside na dificuldade para elevar as exportações de manufaturados, especialmente de alguns segmentos high-tech”, apontou Rodrigo Costa.

Vazios no mapa

O diagnóstico apontou ainda que grande parte das indústrias high-tech estão concentradas na metade norte do RS, com grandes vazios nas regiões de fronteira e em algumas áreas do centro do Estado. Em muitos casos, as atividades industriais high-tech se encontram organizadas sob a forma de arranjos produtivos locais (APLs) ou de aglomerações produtivas, com destaque para aquelas especializadas na fabricação de máquinas e equipamentos agrícolas, na produção automotiva e na indústria química.

Igualmente, o estudo abordou os níveis de distribuição do emprego formal na indústria de transformação, a remuneração salarial e o grau de escolaridade, informações estas segmentadas pelo padrão de intensidade tecnológica dos setores industriais. Além de informações sobre o agregado da indústria de transformação, o diagnóstico traz uma avaliação da evolução do desempenho nos dez anos analisados, por grupos por intensidade tecnológica e para ramos industriais high-tech – químico, automotivo, máquinas e equipamentos, eletrônicos e TICs, materiais elétricos e farmacêutico – bem como para alguns low-techs, como fabricação de alimentos, couros e calçados, borracha e plástico e produtos de metal. Para os setores, foram analisados indicadores como VTI, emprego, produtividade do trabalho e outros.

No último ano do período do diagnóstico, os setores da indústria high-tech somavam 2.976 empresas (cerca de 139 mil empregos), ao passo que as chamadas low-techs somavam mais de 16 mil unidades (495 mil empregos). O diagnóstico observa que a necessidade de maior participação de setores industriais high-tech na manufatura gaúcha não deve ser confundida com redução em termos absolutos dos low-techs.

O pesquisador considera que a elevação da produção desses setores de menor intensidade tecnológica também seja importante para o desenvolvimento, “pois frequentemente são mais intensivos no emprego direto de mão de obra, além de serem fornecedores e/ou consumidores de produtos dos setores high-techs”, informou Costa.

Em um contexto ideal, o RS precisaria elevar o desempenho do conjunto da indústria de transformação, com emparelhamento à respectiva fronteira tecnológica de suas atividades, recuperando o nível de industrialização, com os setores high-techs crescendo mais do que os low-techs. Neste processo, seria importante uma maior participação de empresas locais, inclusive com inserção nos setores high-tech desenvolvedores das tecnologias-chave da presente revolução tecnológica, recomenda o estudo do DEE.

Texto: Pepo Kerschner/Ascom SPGG
Edição: Marcelo Flach/Secom

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