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Saudade, luta contra o câncer e aprendizado

Saudade, luta contra o câncer e aprendizado

Dália é abrigo à família de haitianos e seus quatro filhos. História tristezas, alegrias e o novo não esperado

A dor da partida sempre machuca o coração. Deixar um familiar em um país para traçar uma nova história de vida em outra nação é algo desafiador e triste ao mesmo tempo. Yvain Medina (44) e a esposa Myrlande Joseph (43) fizeram isso e, assim como uma legião de haitianos, deixaram os empregos – ele de taxista e ela de costureira – na América Central e partiram para a América do Sul na busca de oportunidades. Yvain chegou à Dália Alimentos no dia 12 de agosto de 2013 e começou a trabalhar na unidade frigorífica de suínos, no setor estocagem nesta data.

Como toda ideologia de estrangeiros que sonham com um amanhã melhor, Yvain trabalhou, juntou dinheiro e após três anos cumpriu com a promessa de trazer a esposa junto dele. Em 8 de setembro de 2015 Myrlande começou a trabalhar na cooperativa, no mesmo setor do marido, onde permanece até hoje. Com a cabeça em Encantado e o coração no Haiti, a saudade tinha um nome no plural: filhos. Yvlandie (18), Djisaila (16), Bedy Kervens (15) e Midaika (11) permaneceram com os avós maternos e paternos, pois não havia condições de trazê-los aos Brasil naquele momento.

Yvain ficou seis anos sem vê-los e Myrlande quatro, tanto que a filha caçula, quando chegou ao Brasil, não os reconheceu. Nestes anos de profundo aperto no peito eles abdicaram de itens essenciais para sobreviver, como comer, se vestir, etc. com o propósito de enviar cerca de R$ 700,00 aos filhos todo o mês, além de guardar parte do salário para comprar as tão sonhadas passagens aéreas para trazê-los. Depois de seis anos e com o valor de R$ 24 mil no bolso, finalmente adquiriram os bilhetes e no dia 26 de outubro de 2019 os quatro aterrissaram em solo gaúcho.

Yvlandie, Djisaila, Bedy Kervens e Midaika chegaram para ocupar o vazio que pai e mãe, juntos há 19 anos, carregavam desde o momento que deixaram o Haiti e viajaram ao Brasil. Inteligentes, os quatro estudam, falam francês (crioulo) e português, e três já trabalham: Yvlandie cursa o 2º ano do Ensino Médio, sonha em ser maquiadora profissional e também trabalha na Dália, na unidade frigorífica de frangos, em Arroio do Meio. Djisaila e Bedy também estudam, ela no 2º ano do Ensino Médio, ela pretende ser engenheira agrônoma, e ele, no 9º ano, diz querer ser associado da cooperativa, e, por fim, a caçula Midaika, que está no 6º ano.

A descoberta e a dor da doença

Com a chegada dos filhos, embora todas as dificuldades, a felicidade reinava na família Medina, que finalmente estava unida. Mas foi no final de 2020 que uma notícia abalou a todos: o pai Yvain foi diagnosticado com leucemia e em 15 de dezembro do ano passado precisou se afastar do trabalho.

Uma batalha começava a ser travada contra a doença, considerada de grau maligno. Myrlande tornou-se a única trabalhadora da casa e, frequentemente, precisa se ausentar do trabalho para acompanhar o esposo às sessões de quimioterapia na cidade de Lajeado. Ainda em tratamento e debilitado, ora em casa, ora em baixa no hospital, o marido, segundo a esposa, chora ao vê-la sair para trabalhar. “É muito triste, porque ele também queria voltar para a Dália. Batalhamos para trazer os nossos filhos e agora acontece isso com ele. Triste, muito triste, mas eu sempre serei grata a Deus e à Dália por entender esse período difícil e também por deixar eu cuidar do meu marido e acompanhá-lo no hospital. Se não fosse a Dália eu não sei o que seria da nossa família”.

Aprendizes

Para auxiliar no orçamento domiciliar e aprender uma profissão, Djisaila e Bedy conquistaram duas vagas para participarem do Programa Aprendiz Cooperativo, que hoje possui 102 aprendizes, sendo dez estrangeiros de origem haitiana e filhos de funcionários, além de oito Pessoas com Deficiência (PCD’s).

Os irmãos haitianos iniciaram as aulas teóricas em fevereiro deste ano em uma turma com 75 adolescentes. Os encontros ocorrem quatro vezes por semana no formato Ensino à Distância (EAD) e os aprendizes que não possuem computador e nem acesso à internet assistem às aulas na Lume Centro de Ensino.

Os alunos das turmas que iniciaram em 2019 e 2020 têm aula teórica uma vez por semana no sistema EAD e nos outros três dias, como prevê o contrato, os estudantes realizam a parte prática na Dália Alimentos. Hoje são 19 aprendizes desempenhando funções no laboratório, nos supermercados em Encantado e Arroio do Meio e na Agropecuária em Encantado. Em junho, 40 novos aprendizes ingressaram no programa, sendo divididos em sete turmas.

Foto e Texto: Carina Marques

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