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Leite: um abismo entre preços

Valor do leite dispara no supermercado e com a elevação dos custos de produção no campo, produtores se sentem desvalorizados

Para o consumidor, basta um olhar atento nas prateleiras dos supermercados para constatar: o preço do leite e dos derivados disparou nos últimos meses e passou a pesar (ainda mais) mais no bolso. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) reforça a percepção. De acordo com o levantamento, leites e derivados tiveram alta de 16,84%, bem acima da inflação de 5,65% mensurada pelo índice, considerando o acumulado dos seis primeiros meses deste ano.

Em pesquisa feita nos mercados da região, a variação de preço está entre R$7,99 e R$6,49, dependendo da marca e mercado pesquisado. Estes preços não incluem produtos desnatados ou zero lactose.

Para a professora, Fabrícia Ferreira, que tem um filho de apenas quatro anos, os preços têm assustado e encarecido a conta no final do mês. “Em nossa casa o consumo de leite é alto, cerca de 24 litros por mês. Nós pagávamos R$3,99 e a impressão é de que eu pisquei os olhos e já olhei o valor em R$7,99”, declara.

Ela continua: “Nós não conseguimos diminuir o consumo familiar, pois com as crianças é mais difícil. A alternativa está sendo buscar produtos em promoção e com o preço mais acessível”, finaliza.

Produtores alegam aumento nos custos de produção

Apesar da alta, produtores alegam aumento nos custos de produção no campo, enquanto ainda contabilizam prejuízos em função do período de estiagem. O vice-presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no RS (Fetag), presidente do Conselho Paritário Produtores/Indústrias de Leite do RS (Conseleite) e presidente da Câmara Setorial do Leite, Eugênio Zanetti, explana sobre o assunto.

“Atualmente o litro do leite é encontrado na faixa entre R$7 e R$8 no supermercado, e com isso, é bom fazermos um resgate da situação do produtor de leite nos últimos dois anos”, inicia ele. “Os produtores vinham pagando para trabalhar, pois o leite era o único produto no segmento das proteínas que ainda não tinha recebido aumento. Nós passamos pela pior estiagem do Estado nos últimos tempos e os custos de produção estão subindo demais. Hoje o produtor está recebendo uma pequena reposição por isso. Segundo os dados do levantamento do último Conseleite, feito no mês de junho, o preço médio pago ao produtor é de R$ 2,65 ao litro de leite. Porém, isso mal cobre os custos de produção. E se compararmos ao valor do produto no supermercado, veremos um abismo de diferença em relação ao que o produtor está recebendo”, frisa.

Ele segue: “Devemos destacar ainda que, em comparação ao mesmo período do ano passado, houve uma baixa na captação de leite, em torno de 12% aqui no estado. Isso é reflexo também daquelas 44 mil famílias que desistiram da atividade somente nestes últimos cinco anos no RS. Isso representa 52% das famílias que produziam leite lá, no ano de 2017”, destaca.

Zanetti ainda cita outras problemáticas. “Também em razão da pandemia e da guerra entre Rússia e Ucrânia, está faltando leite no mundo. Uruguai e Argentina, que colocavam muito leite aqui no estado, também estão com escassez, e é um cenário que não tem tendência de mudar, principalmente agora no inverno, onde o produtor está com dificuldade de fazer as pastagens, visto que vínhamos num período de estiagem, depois veio a geada e agora o excesso de chuva”, salientou.

“O momento requer cautela”

Zanetti revela que para os próximos três meses, há uma tendência de estabilidade e até mesmo uma alta no preço pago ao produtor de leite. “Mas agora o momento requer cautela, principalmente ao que diz respeito a investimentos por parte dos produtores, pois esse cenário logo ali na frente pode mudar”, alerta.

Vice-presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no RS (Fetag), presidente do Conselho Paritário Produtores/Indústrias de Leite do RS (Conseleite) e presidente da Câmara Setorial do Leite, Eugênio Zanetti

Ele garante que enquanto integrante de entidades ligadas ao setor, seguirá trabalhando e orientando os produtores da melhor forma. “Tivemos, nessa semana, o anúncio do Plano Safra, e pedimos ao Governo Federal que tivesse um olhar diferenciado para o produtor de leite, possibilitando um melhor enquadramento familiar. Hoje um produtor que produz 500 litros de leite por dia, já não se desenquadra do Pronaf, porém, ele não é um grande produtor e precisa do Pronaf para poder fazer o seu custeio, o seu investimento. Por isso pedimos sensibilidade do governo para que haja políticas específicas para o produtor de leite, que neste momento passa por grandes dificuldades. Embora o preço pago pelo litro de leite tenha aumentado, o maior problema agora são os altos custos de produção”, lamenta.

“O ciclo do produtor de leite na agricultura familiar está chegando ao fim”

Morador da Linha Contini, em Anta Gorda, Mauro Lui atua na atividade leiteira desde a infância. “Nós morávamos na comunidade de Linha Paredão e minha mãe tinha duas vacas de leite. Naquela época o leiteiro não vinha buscar o leite em casa e então tínhamos que encilhar o cavalo de madrugada e levar até ao local de coleta. Dava uns 2,5 km da nossa propriedade. Lá esperávamos o leiteiro que recolhia o leite e levava para Xarqueada, onde tinha o laticínio que era da Cosuel”, recorda.

“Quando casei, aumentamos o plantel para 12 vacas, que era o que a propriedade comportava. Em 2004, já na Linha Contini, começamos a ampliar a produção. Hoje estamos com 35 vacas em lactação e temos uma produção de cerca de mil litros de leite/dia. Contando com as novilhas, temos em torno de 50 animais”, acrescenta.

Lui destaca já ter passado por muitas crises na questão do leite. “Inclusive, nos últimos dois anos a situação agravou, justamente porque o custo de produção subiu. Há cerca de quatro meses chegamos a pagar R$ 2,90 pelo farelo de soja e o milho estava na faixa de R$ 100 ao saco, ou seja, estávamos sobrevivendo na atividade porque tínhamos reservas, tínhamos a silagem e um pouco de pastagem”, conta.

“Agora recebemos um aumento de cerca de R$ 0,70, sendo que no mês passado eu recebi R$ 2,68 pelo litro do leite, mas não é nada comparado ao preço que está no mercado. Ainda não sei quanto receberei referente à entrega feita em junho, mas teria que subir no mínimo R$ 0,50 centavos para chegar a um patamar de estarmos recebendo em torno de 40% do valor que o leite está sendo comercializado no mercado hoje. Estamos ganhando bem menos que as indústrias e as distribuidoras, e a insegurança é muito grande”, frisa.

Ele conclui fazendo um desabafo. “Há muitas piadas nas redes sociais de que o agricultor deve estar dando ouro ou gasolina para as vacas. Esse povo não conhece o que é uma vaca de leite e minha resposta tem sido: o ciclo do produtor de leite na agricultura familiar está chegando ao fim. Em menos de cinco anos em nosso município, não vamos ter 50% dos produtores que existem hoje. Talvez a produção não diminua muito porque os grandes produtores vão ampliar, mas os pequenos produtores não têm como sobreviver quando se fica um período de nove meses no ano trabalhando no vermelho, como tem acontecido ultimamente”, pontuou.

Família ainda acredita na recuperação do mercado

Eunice Casagrande Dariff, moradora da comunidade Morangueira, interior de Nova Alvorada, explana sobre a situação que a família tem passado para não desistir da atividade.

“Nós sempre trabalhamos com o leite e há quatro anos paramos com a atividade com aviários e investimos só no gado leiteiro. Este mês houve um pequeno aumento no valor pago pelo litro, mas o grande problema é que os custos de produção estão cada vez mais altos”, inicia a produtora.

“Quando se põe na ponta do lápis todos os gastos com a produção, até mesmo para quem faz a silagem, acaba desanimando. O pequeno ajuste que o produtor tem recebido foi apenas um alívio, pois há dois anos que estamos trabalhando no limite”, acrescenta.

Hoje a família conta com um plantel de 26 animais e investimentos na lavoura de grãos, para diversificar a produção e buscar um rendimento extra.

 Sucessão familiar

O filho de Eunice, Henrique, auxilia os pais na propriedade enquanto conclui sua graduação em agronomia, pois ele deseja seguir na propriedade familiar. Ele busca unir o que vem aprendendo durante o curso, com toda experiência e conhecimento prático herdado dos pais.

Família Casagrande Dariff

“A cadeia produtiva, do produtor até o consumidor final, é um caminho longo e que envolve muitos impostos, por isso o susto nos mercados com leite custando mais de R$7. Nós negociamos o leite, em média, a R$2,30 e R$2,60, com insumos elevados, sem contar as estiagens que passamos”, explana Henrique.

Um jovem que acredita no campo

Henrique afirma que acredita no futuro da agricultura familiar, assim como na produção leiteira, desde que haja uma valorização melhor do pequeno e médio produtor.

“Após iniciar a faculdade eu comecei a ter uma visão diferente da propriedade, como tecnologias aplicadas, administração e investimentos. O conhecimento técnico ajuda, pois eu sabia apenas trabalhar, eu já mudei a forma de agir em diversas situações, sempre buscando economia, desenvolvimento e rendimentos para a propriedade”, destaca.

Ele finaliza: “Eu quero continuar no campo, dar seguimento a tudo que meus pais iniciaram. Há muito conhecimento na agricultura familiar e é um setor que gira a nossa economia”.

 

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