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Madrugada de caos e agressões marcam o pré-Carnaval em Anta Gorda

Inquérito apura abordagem violenta de policiais militares a um empresário da cidade

A praça central de Anta Gorda, tornou-se, na madrugada da segunda-feira, 28 de fevereiro, um cenário de violência, medo e desespero. “Achei que iriam me matar”, inicia relatando um empresário da cidade, de 54 anos, que foi agredido por quatro policiais militares.

A abordagem

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Ele, junto a um grupo de amigos e um dos filhos, aproveitavam a véspera do feriado de Carnaval em um bar da cidade para cantar, tocar gaita e violão. “Estávamos cantando, tocando e nos divertindo, até que a polícia chegou e nos pediu para parar. Os que estavam tocando gaita e violão de imediato guardaram seus instrumentos, ficaram mais um pouco por lá e então um deles disse que iria para casa, pois já estava tarde. Assim que ele saiu, a viatura da Brigada Militar passou em alta velocidade e com a sirene ligada naquela mesma direção. Eu e meu filho nos preocupamos e nos perguntamos se havia acontecido alguma coisa, pois era possível ver que a viatura parou na praça, próximo à igreja”, relata

Segundo o empresário, ele e o filho partiram a pé até o local para verificar a situação. “Chegamos lá e tinham abordado nosso amigo. Quando um dos policiais nos viu perguntou o que estávamos fazendo lá, começou a nos xingar e apontou a arma e a engatilhou”, relata. “Eu e meu filho nos distanciamos um pouco e ficamos observando, pois queríamos saber o que estava acontecendo. Quando achamos que estava tudo bem e decidimos ir para casa, um dos policiais disse que estávamos presos e chegou por trás com uma arma, nos encurralando. Outro estava com um cassetete. Tentávamos nos distanciar, mas eles não deixavam”, destaca.

Logo depois uma segunda viatura chegou ao local: “Quando eles chegaram eu me virei e quando fiz isso um dos policiais deu com cassetete nas costas. Os outros dois que haviam chegado colocaram spray de pimenta nos meus olhos. Depois disso não enxerguei mais nada. Soube que eles algemaram meu filho, então me imobilizaram no chão e começaram a me agredir com vários chutes”, disse.

 

“Era possível ouvir a válvula do meu coração pulsar, de longe”

Portador de problemas cardíacos, o empresário que possui uma válvula no coração, relata a ação do filho ao saber da agressão. “Depois da agressão eu desmaiei. Soube que me colocaram na viatura e me deixaram jogado no lado de fora do hospital, no chão. Meu filho mais novo, após saber do acontecido, foi até o hospital local, tendo sido apenas ele que me tirou do chão e me carregou para dentro do hospital. As pessoas que estavam próximas de mim naquela noite disseram que era possível ouvir a válvula do meu coração pulsar, de longe”, ressalta o empresário que foi agredido na cabeça, nas costas e nas costelas. “Eu não consigo quase caminhar e nem dormir com as dores que sinto. Estou todo inchado”, lamenta.

O filho mais velho, por sua vez, que estava com o pai no momento do ocorrido, relata ter sido levado ao hospital em outra viatura. “E o policial ficou lá, com uma arma apontada para mim, mesmo eu estando algemado. Anteriormente, na praça, eles também me agrediram e usaram e spray de pimenta”, disse o jovem.

Ao chegar ao hospital e encontrar o marido naquela situação, a esposa relata ter ficado em choque. “Meu marido estava atirado no chão e meu filho estava lá sentado com um policial ao lado, apontando uma arma para ele. Eu não sabia o que fazer”, recorda.

População pediu por justiça por meio de cartazes

“Eu não sou bandido”

A família demonstra grande indignação com a situação que foi exposta a todos por meio de um vídeo compartilhado nas redes sociais, que mostra a agressão. A gravação repercutiu, e muito, em Anta Gorda e toda a região. “Nunca imaginei passar isso. Hoje quando olho os vídeos ainda não consigo acreditar. Eu não sou bandido, eu e minha família temos uma empresa que emprega 15 pessoas e gera retorno em Anta Gorda. Eu só quero trabalhar, tocar meu negócio e poder ter meus momentos de lazer, como todo mundo”, enfatiza.

Eles não deveriam ter me agredido, porque eu em nenhum momento levantei um dedo para eles ou os desacatei. Teve uma hora que achei que iriam me matar”, frisa.

 

Eraldo José Leão Marques junto a outros manifestantes

Policiais envolvidos são afastados após inquérito ser instaurado

Após a instauração, ainda na segunda-feira, 28, de um inquérito policial por parte do Comando Regional de Polícia Ostensiva do Vale do Taquari, os quatro brigadianos que aparecem em vídeos que circulam em grupos de WhatsApp, abordando e agredindo um empresário da cidade, foram afastados temporariamente de suas atividades.

A informação é do tenente coronel do 22º BPM, Ivan Urquia. “Nós, neste momento, após o surgimento dos vídeos, denúncias, e após os fatos serem externados da forma como estão, estamos ouvindo algumas pessoas, testemunhas, e juntando fatos como o exame de lesões feito no abordado. Também vamos ouvir os policiais militares envolvidos, que terão direito de se manifestarem no sentido de dizer o porquê de a abordagem ter tomado aquele vulto”, disse.

“O que eu posso antecipar é que os quatro policiais militares envolvidos na ocorrência, até para resguardá-los já que a cidade está afetada pelo fato havido e para que não sejam acusados de estarem atrapalhando as investigações ou intimando eventuais testemunhas, por uns dias eles estarão afastados e à disposição do inquérito que foi instaurado”, acrescentou.

Dezenas de veículos participaram do buzinaço

 

“Nem sempre as coisas saem como deveriam sair”

Conforme Urquia, não cabe ao comandante se pronunciar num primeiro momento. “Não é o momento do comandante da Brigada Militar do Vale do Taquari se manifestar, absolvendo ou condenando os policiais militares, por mais claras que sejam as imagens do vídeo. Ao final do inquérito o comandante se manifesta, por escrito, analisando se houve ou não indícios de crime. A apuração será imediata e o mais rápida possível para que a comunidade possa em pouco tempo, saber qual é a posição a ser tomada. No calor dos fatos, qualquer pronunciamento do comandante é precipitado”, frisou.

Ele ainda explana sobre as técnicas de abordagem da Brigada Militar. “Nós temos uma técnica de abordagem padrão da Brigada Militar para todo o Estado e somos devidamente treinados com instruções. Porém, a abordagem vai depender do fato em si e da resistência oferecida pelo abordado. O primeiro passo é o uso da voz, onde orientamos o abordado, por exemplo, a largar a arma, não reagir, colocar a mão na cabeça. Se o abordado resistir e não obedecer, faz-se então o uso da força onde podemos usar a arma de condutividade elétrica, bastão policial e técnicas de mobilização, mas nem sempre as coisas saem como deveriam sair. Erros acontecem, por isso analisamos todos os casos, com cuidado”, encerrou.

Em relação ao desfecho da história e a instauração do inquérito, o empresário antagordense se manifesta: “Agora é esperar para ver o que que vai acontecer, mas tomara que seja feita justiça. Já fiz o Corpo de Delito em Soledade e fui ouvido pelo próprio comando da Brigada Militar. Acredito que esse seja um caso isolado, e que os policiais não sejam todos iguais. Sei que tem uns que trabalham corretamente, até porque o que eu passei eu não gostaria que ninguém passasse. Aqui na cidade todos me conhecem, eles não precisavam nem ter puxado a arma para me abordar”, lamenta.

A família já está com uma advogada à frente do caso, a qual publicou a seguinte nota de esclarecimento: “Muito embora o teor dos vídeos feitos por diversas testemunhas presentes na abordagem realizada pela Brigada Militar na madrugada do dia 28 de fevereiro no município de Anta Gorda, não deixe dúvidas sobre o excesso na abordagem policial, todos os fatos já estão sendo apurados pelas autoridades responsáveis. O empresário e sua família seguem à disposição da Brigada Militar e do Poder Judiciário, como maiores interessados na elucidação e apuração da verdade. De igual sorte, a responsabilização dos agentes e do próprio Estado também será oportunamente buscada junto ao Poder Judiciário, com a certeza de que fatos como esse não se coadunam com os princípios mais básicos de um Estado Democrático de Direito. Reafirmamos a certeza de que a Brigada Militar dará ao caso o tratamento condizente com a gravidade da situação, atribuindo a responsabilização de cada um dos envolvidos com toda a seriedade e idoneidade que são marcas de uma instituição que não pode e não deve ter sua reputação manchada por ações isoladas de seus agentes”, escreveu a advogada Melise Andrade Krämer.

Buzinaço

Na noite da segunda-feira, como forma de protesto à ação dos policiais militares, dezenas de pessoas se reuniram na praça de Anta Gorda para um buzinaço. Mais de 150 veículos participaram. Outras pessoas carregavam cartazes pedindo por justiça.

Um dos que estiveram presentes na manifestação, foi o ex-prefeito Eraldo Leão Marques. “É Carnaval, um momento de alegria onde poderíamos todos nós estar aqui confraternizando, mas infelizmente surgiu essa situação. No início eu não sabia nem quem era o cidadão, mas para mim não interessava quem era, o que importava era que se tratava de um cidadão sendo agredido da forma mais covarde, que há muito tempo a gente não via”, declarou.

“Minha indignação foi tão grande que quando fiquei sabendo quem era visitei a família e ela nos deu a liberdade de fazer essa manifestação toda e tocarmos em frente. Já vínhamos ouvindo falar de situações similares que vinham acontecendo, mas agora foi a gota d’água, não dá mais”, frisou. “Esses quatro policiais não vão mais trabalhar aqui na cidade, porque a população de Anta Gorda não quer, e se a Brigada Militar os deixar aqui, vai perder o respeito por todos nós. Sabemos que a Brigada Militar está acima disso tudo, que é uma instituição honrada, antiga, conhecida, e tenho certeza que irá tomar uma atitude exatamente como estamos pensando”, declarou.

O ex-político ainda explanou: “Para nós não basta esse inquérito e afastamento dos policiais. Se precisar iremos falar com o governador do Estado e com a comissão de Direitos Humanos na Assembleia. E essa família vai ter que ser indenizada pela covardia que fizeram com ela”, encerrou Marques.

O empresário agredido, também se manifestou diante da atitude de solidariedade. “O pessoal de Anta Gorda é muito acolhedor e me dou bem como todos daqui. Eu participo em todas as comunidades, e acredito que por isso também recebi tanto apoio. Penso que todos tem o direito de ir e vir e poderia ser qualquer outra pessoa em meu lugar. Se eu estivesse do outro lado, com certeza também estaria lá, defendendo”, encerrou.

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