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Ervateiro visualiza cenário caótico para o mercado interno nos próximos anos

“Pode ser que tenhamos que reimportar a erva-mate”

Afinal, o que esperar para o setor ervateiro nos próximos anos? Esse tem sido um questionamento constante, seja por parte da indústria, dos produtores rurais, ou dos próprios consumidores, haja visto que uma série de preocupações vêm rondando a cadeia.

O empresário Alfeu Strapasson, um dos proprietários da empresa Rei Verde (Industrial do Mate Vison Ltda), que atualmente exporta erva-mate para cerca de 20 países, explana sobre o assunto.

 

Redução do consumo

Muito tem se falado na redução do consumo da erva-mate no Brasil, fato que é afirmado por Strapasson. Segundo ele, a erva-mate tem uma importância muito maior para os argentinos do que para os brasileiros. “Mas talvez a grande diferença seja a forma como se toma chimarrão, já que na Argentina cada um tem a sua cuia, e no Brasil as rodas de chimarrão foram deixadas de lado em razão da pandemia. Se fala em 15% de queda de consumo no Brasil, enquanto na Argentina houve um aumento de 5% no consumo”, ressalta. “No mercado interno a Argentina consome em média 1 milhão de quilos por dia de erva-mate no País inteiro, cerca de 100 milhões de quilos ou até mais do que o Brasil”, acrescenta.

 

Exportações

Com cerca de 50% do volume das exportações concentradas basicamente na Síria, a Argentina, em 2020, exportou em média 43 milhões de quilos de erva-mate. “Mas se considerarmos que pouco mais de 20 milhões são respectivos somente a Síria, as exportações efetivas para o resto do mundo somam cerca de 21 milhões de quilos. Já o Brasil exporta só para o Uruguai mais do que esse montante, cerca 27 milhões de quilos”, frisa.

Conforme Strapasson, a explicação de que a Argentina passou a comprar erva-mate no Brasil porque passou a exportar muito mais não se fundamenta. “O mercado interno se aqueceu um pouco, os argentinos tiveram um pouco de frustração de safra e a questão cambial tornou a erva-mate brasileira muito mais atrativa do que a deles”, salientou.

Ele destaca que na indústria brasileira estão crescendo cada vez mais as exportações de erva-mate. “Nós, por exemplo, só no mês de setembro fechamos com a Colômbia e Peru. Não são grandes volumes, mas os importadores destes países onde o consumo não é tão grande, acabam querendo a exclusividade na importação, ou seja, ao mesmo tempo que eles vão ser importadores de Rei Verde, eles querem importar as principais marcas da Argentina e do Paraguai, por exemplo de forma exclusiva”, pontua. Segundo ele, a Rei Verde é hoje a segunda marca brasileira mais reconhecida no mercado externo.

 

Erva-mate além do chimarrão

Outro assunto abordado pelo empresário é quanto ao consumo da erva-mate, além do chimarrão. “Nós do mercado ervateiro poderíamos de forma mais organizada e conjunta, buscar o mercado mundial. Tem espaço para muitas ervateiras, mas infelizmente o setor não pensa desta forma. Foi plantada muita erva-mate no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e o chimarrão não vai absorver essa erva toda. Precisamos criar formas de utilização, que deem volume de consumo, que possamos vender toneladas de erva-mate. Em poucos meses vamos ter uma safra boa de erva-mate e temos que buscar mercado para isso tudo”, frisou.

“Lembro que anos atrás os produtores vinham na empresa se inscrever para poder vender sua erva-mate, garantir seu lugar na fila, e isso vai voltar a acontecer daqui há algum tempo. De uma realidade onde hoje o produtor é assediado pela indústria que tem mercado, iremos para a realidade onde o produtor poderá se deparar com uma situação que não vai ter para quem vender sua erva-mate, tendo sobra de matéria-prima”, acrescenta.

Erva-mate cancheada

Quanto à erva-mate cancheada, Strapasson acredita que ela está com os dias contados. “A Argentina vai parar de comprar erva-mate cancheada do Brasil, pois o mundo quer comprar erva-mate processada, empacotada, quer padrões de folha e de pó. Por isso ressalto que produtor valorize a empresa que esteve sempre ao seu lado”, pontua.

 

Erva-mate orgânica

A nova aposta da Rei Verde tem sido na linha de orgânicos, mercado no qual entrou há cerca de um ano. “Temos demanda para o produto, mas estamos com uma dificuldade muito grande. Estamos buscando o apoio da Emater/RS-Ascar para tentar habilitar produtores que tenham o perfil de produzir erva-mate orgânica, sendo que hoje a compramos de sete fornecedores diferentes, mas para isso precisamos viajar 1,2 mil quilômetros (entre ida e volta) para buscar, sendo que poderíamos ter essa erva-mate aqui, na nossa região. Reforço: vai chegar o momento que o produtor vai ter dificuldade de vender sua matéria-prima e vão ser valorizados aqueles que tem um produto diferenciado, a exemplo da erva-mate orgânica”, enfatiza.

 

Volume de venda

De acordo com Strapasson, hoje a Rei Verde vende cerca de 150 toneladas/mês de erva-mate para o mercado externo. “Quando se vendia erva-mate cancheada para a Argentina chegávamos a 350 toneladas. Se conseguirmos manter essa venda de 150 toneladas de erva-mate empacotada para o exterior será fantástico”, disse. “Lembrando que para a exportação o ideal é um ano e meio de estacionamento. Hoje estamos preocupados com a erva-mate que vamos vender em 2023”, frisou.

Ampliação da empresa

Sobre a ampliação da empresa, localizada na comunidade de Pinhal Queimado, ele ressalta: “Já estivemos em contato com a Administração Municipal, pois entendemos que a região vai se tornar um grande polo industrial, inclusive lançamos o desafio ao Executivo de criar uma área industrial em Pinhal Queimado. Nós já pedimos de 20 mil a 30 mil m² de área para a ampliação”, revela.

Avaliação do mercado interno

Para Strapasson, a situação do mercado interno hoje é caótica. “O povo está sem dinheiro, os mercados não aceitam aumento, as embalagens dobraram de preço, assim como o diesel, a gasolina e a mão de obra subiram absurdamente. A erva-mate verde também subiu um monte, e os ervateiros pela característica de serem empresas bem familiares, estão se descapitalizando, estão trabalhando com prejuízo. Todos os meses nós, da indústria, teríamos que estar repassando 4 ou 5% de aumento na erva-mate, mas isso não está sendo possível em função dos aumentos que já vieram”, destaca.

Ele segue: “No meu ponto de vista a erva-mate hoje teria que estar sendo paga R$ 18 a arroba, o que ia ser bom para o produtor, para o consumidor, e para a sobrevivência da indústria. De nada adianta ter o produtor se não tem a indústria, e vice-versa. O produtor tem que estar consciente também que se continuarmos perdendo consumidores e o preço da erva-mate subir demais, logo adiante ele não vai ter para quem vender. Se o mercado interno não mudar, se não baixar o preço da erva-mate verde, para os próximos meses só enxergo caos. Muitas empresas poderão chegar ao ponto de não conseguirem honrar pagamento ao produtor”, lamenta.

Conforme ele, hoje o cenário das exportações está muito bom, mas o mercado interno está um caos. “Esperamos que o setor possa ser pujante não só na exportação, mas também no mercado interno”, salienta ao destacar que a Argentina causou um desequilíbrio muito grande no setor nos últimos dois anos.

Ele aguarda o mês de dezembro para avaliar se a Argentina voltará a comprar erva-mate do Brasil e também do Paraguai. “As empresas querem comprar, mas o Instituto Nacional de Erva-Mate da Argentina (INYM) vai criar barreiras. E se mudar a questão cambial poderá acontecer o inverso: a erva-mate que mandamos para a Argentina poderá voltar, porque daí vai ser mais barato comprarmos daquele país, do que dos produtores daqui. Pode ser que tenhamos que reimportar a erva-mate”, finaliza.

 

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