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Mãe raiz: “A gente quer que eles aprendam a dar valor para as pequenas coisas”

A agricultora Jaqueline Mucelin revela como atua na educação dos filhos

Por Rosemary Piccinini

Um dos principais papéis dos pais na vida dos filhos é transmitir seus valores e crenças sobre o mundo. Isso, inclusive, é muito importante para que as crianças se tornem adultos éticos no futuro.

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A capacidade de educar sem causar terror às crianças é um grande desafio e não existe uma receita pronta para que isso seja feito. Porém, a agricultora Jaqueline Mucelin, de 29 anos, tem reunido os ingredientes necessários para que isso aconteça. Mãe de Kaike de 11 anos, Davi de sete anos, e João Lucas de seis anos, ela prepara os filhos desde cedo para que saibam a dar valor às pequenas coisas e a cada conquista.

E é na comunidade de Linha Tunas, interior de Anta Gorda, que tudo acontece. Ao passar pela propriedade da família, é possível ver as crianças correndo de pés descalços na terra, brincando de esconde-esconde, e fazendo brincadeiras de antigamente, sem brinquedos da moda ou algo do tipo.

“Os meus filhos sempre tiveram todo o amor, todo o carinho. Eles adoram brincar na terra e não dão tanto valor para brinquedos, mas sim para as brincadeiras. Eles olham um pouquinho o celular, de vez em quando, mas os jogos remetem à colheita e ao plantio. É disso que eles gostam”, conta Jaqueline, que é casada com Andrei (pai dos três pequenos) há 12 anos. “Eles nem sabem o que é um videogame e nunca nos pediram para comprar brinquedos. Eles pedem coisam que sabem que são necessárias, como calçados, material escolar, roupas, pois entendem que não é preciso esbanjar, e não nos pedem dinheiro sem dizer o que vão comprar”, acrescenta ela.

Mãe raiz

Jaqueline recorda que quando era pequena, após voltar da escola, ia alimentar as vacas para os pais Luiz e Marilurdes, enquanto eles trabalhavam na roça. “Eu não conseguia carregar o cesto cheio de silagem, pois era pesado, então enchia ele pela metade e ia tratar as vacas. Depois minha obrigação era cuidar da minha avó, que era enferma”, conta.

E é assim que Jaqueline tem criado os filhos, desde pequenos, ensinando que existem sim os momentos de lazer, mas também existem as obrigações. “Eles acordam entre 7h30min e 8h. Agora que é mais molhado e frio, eu os deixo na minha mãe (que sempre me ajudou muito), mas eles não se importam se tem que nos acompanhar na roça. Eles já aprenderam a se defender, pois tiveram que se virar, desde pequenos, pois eu e meu esposo tínhamos que trabalhar para alimentá-los. Eles foram criando as responsabilidades e cuidando um do outro”, relata.

“O mais novo, João Lucas, quando bem pequeno, como eu não tinha com quem o deixar, eu o levava no carinho e deixava num lugar que ele não caísse para que eu pudesse trabalhar nas mudas, que é logo debaixo da nossa casa. Já o Kaike, cheguei a levá-lo no bebê conforto, quando pequeno, para a roça. Não tinha o que fazer, e confesso que não me arrependo de ter criado eles assim”, destaca. “Inclusive esses dias, o Davi disse que quando ficássemos velhos ele iria cuidar das mudas para vender (risos). Eles não gostam de ficar dentro de casa, tanto que nossa televisão estragou fazem uns cinco meses e eles não reclamaram”, frisa.

Até hoje os três acompanham os pais na roça, mas porque gostam. “Levamos alguma coisa para eles comerem, colocamos um colchãozinho e uma coberta encima do carretão do trator e eles ficam lá conosco. Eles gostam”, ressalta. “E mais: eles não gostam de usar botas, eles gostam de andar descalços e praticamente nunca ficaram doentes. Quando dá uma gripezinha dura dois ou três dias e depois já estão bem. O Kaike teve um princípio de pneumonia quando tinha três meses e depois nunca mais. Os outros dois nunca internaram”, enfatiza.

Jaqueline revela que não pretende ter mais filhos. “O Kaike, na verdade, não foi planejado, afinal eu tinha 17 anos quando engravidei, não tínhamos casa pronta e nem nada. Tanto que tivemos que morar de favor por algum tempo, até conseguirmos construir a nossa casa. O João Lucas, também não foi planejado. O único foi o Davi. Os três são a razão das nossas vidas. Eles vão juntos para a escola no turno da tarde e agora estão fazendo cartõezinhos na escola e distribuindo pela casa para eu encontrar”, salienta. “Confesso que na criação dos três em alguns momentos pensei em desistir, pois no início não foi fácil, mas hoje eles fazem tudo valer a pena”, acrescenta.

Cada um dos filhos tem a sua característica. “O Kaike é o meu parceiro. Ele chega da escola e me pergunta o que ele tem que fazer. Está sempre disposto a ajudar, inclusive ajuda a arrumar os irmãos para irem para a escola e também nas tarefas de casa. Já o mais arteiro e esperto é o João, ele tem respostas para tudo. O Davi é um dos mais interessados e curioso em saber o que estamos fazendo”, disse.

Ela segue: “E os três comem de tudo. Adoram batata, polenta em molho e sopa de feijão. Eu não gosto que eles fiquem comendo muitas coisas compradas como bolachinhas e salgadinhos. Eu não proíbo, mas controlo, pois sei que fazem mal à saúde. Enfim, dou a eles o necessário”, pontua.

Kaike, Davi e João Lucas têm até um espaço de terras reservado para eles. “Eles têm um pedacinho de erva-mate cada um, e quando eu e meu esposo vamos limpar a área, levamos eles junto e cada um tem que cuidar do seu cantinho. Eles adoram e se veem incentivados. Não é que a gente queira explorar eles. A gente quer que eles aprendam a dar valor para as pequenas coisas, pois tem crianças que tem tudo, mas não se esforçaram para ter aquilo e nem mesmo sabem de onde vem”, frisou.

Jaqueline encerra: “Eu sempre digo para eles que o que eu quero é que eles sejam pessoas realizadas, sem pular nenhuma etapa da vida. Eu e meu esposo não precisaríamos trabalhar tanto, mas pensamos e queremos dar um futuro para eles. Se eles quiserem permanecer na propriedade tudo bem, mas se quiserem estudar precisamos estar preparados. Quero que eles façam o que gostam”, concluiu.

 

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