O desafio de dirigir na abandonada ERS-332

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Por Denise Borsatto

 

Uma hora de sufoco na ERS-332…

Fui desafiada a percorrer a ERS-332 para relatar a situação das estradas. Eram 7h da gelada manhã de quarta-feira, 11, quando embarquei nesta jornada com um Palio 1.0. No termômetro, 6 °C, mas a sensação térmica era negativa. Lá fora, forte neblina escondia o sol. O mesmo trajeto que fiz é percorrido por centenas de motoristas diariamente. A ideia inicial era fotografar as péssimas condições em que a via se encontra, mas, além disso, me surpreendi ao perceber o desafio de conseguir trafegar nela.

Além de curvas bem acentuadas, havia muitos buracos indesviáveis, placas de sinalização que indicavam a velocidade máxima caídas no chão, outras que apontavam curva tapadas pela vegetação que há muito tempo não é roçada.

Não cheguei nem na metade do caminho e desisti de chegar em Encantado que era a ideia inicial. Dei a volta e retornei a Arvorezinha. Desisti pelo medo de me acidentar; de furar algum pneu; de estragar o carro e pela tensão que andar numa rodovia nessas condições provoca. Esse medo que eu senti, inúmeras pessoas vivenciam todos os dias quando necessitam usar a rodovia para trabalhar, para ir a centros médicos, universidades, entre outros afazeres, pois a estrada é uma das principais da região.

Foram cerca de 30 quilômetros percorridos e um baita sufoco. Pois me vi num lugar sem rumo. Fora os obstáculos físicos, a neblina da manhã impedia a visão da estrada. Colocando em risco a minha vida e a de outras pessoas que ali transitavam com muito cuidado, assim como eu.

Placas escondidas no mato e forte neblina impedem a visualização para o motorista

 

Uma luz no fim do túnel…

A péssima condição da ERS-332 é uma situação que perdura há anos. Ela é muito utilizada por toda a região. É o caminho, por exemplo, para chegar a Univates, em Lajeado, além de ser um dos acessos a Porto Alegre.

De manhã cedo e à noite, há muita neblina. Aliado a isso, está a má sinalização. E, como toda estrada precisa de manutenção, a 332 não é diferente. Períodos intensos de chuva e umidade acabam deteriorando a pavimentação e a deixando quase que intransitável.

Porém, há cerca de 90 dias, a região enxergou uma luz no fim do túnel. O Daer anunciou o recapeamento asfáltico. A obra iniciou. Foi realizada a fresagem (retirando o asfalto ruim) e os serviços foram paralisados. O que estava ruim ficou ainda pior. Além dos buracos existentes, outros inúmeros se abriram.

Veja no mapa os pontos que apresentam maior dificuldade de tráfego:

 

A esperança de melhorias morreu…

Até agora, após o início das obras, a única atividade vista na pista é uma operação tapa buracos e um pequeno trecho de camada asfáltica, próximo ao Moinho Sangalli, em Encantado.

Conforme a Construtora Giovanella, responsável pela obra, os trabalhos não estão paralisados. A falta de material asfáltico é o que gera o atraso no andamento dos serviços. “O Daer e a Construtora Giovanella tem um contrato de conservação da malha rodoviária, que são cerca de 600 quilômetros. Nós prestamos o serviço e o Daer fornece o material. E no momento estamos sem esse material, por isso não damos andamento no recapeamento. A nossa equipe está lá, fazendo os reparos possíveis; no mais, dependemos do Daer”, explicou o engenheiro civil Marcel Pereira.

Ainda, conforme Pereira, o contrato não tem trecho definido. “Nós iniciamos a obra em Encantado e estamos subindo a Doutor Ricardo, o contrato não tem um km definido”, conta.

 

Empresário lamenta situação

O motorista e proprietário da empresa de transportes RMC, de Arvorezinha, Jaime Cozer, o “Seco”, é um dos que pega a estrada diariamente e sofre com a situação.

“Vivemos esse descaso. Eles não estão fazendo nada. Dizem fazer uma operação tapa buracos, mas isso não vai resolver a situação. Pode até amenizar por uma semana, mas logo voltará a ser tudo igual novamente”, disse.

Seco teme um possível acidente. “Transportamos 46 alunos no ônibus todas as noites até a Univates. A estrada está sem sinalização, com buracos e mais a neblina, poderá acontecer um acidente e quem será o responsável?”.

O empresário diz ter feito uma proposta ao Daer para comprar o asfalto e recuperar a via. “Até isso eu fiz, mas eles não deixam e não fazem nada”, conclui.

 

Situação afeta a vida das pessoas

Devido à situação em que se encontra a estrada, a médica Ana Paula Almeida Serafini, que reside em Arvorezinha e trabalhava durante toda a semana em Encantado, reduziu as viagens. “No segundo dia de trabalho em Encantado, furei o pneu. A situação está muito caótica, por isso tenho diminuído o máximo possível dos dias que trabalho em Encantado”, fala.

Seu esposo, Ernani Signor Romagna, que também é médico e reside em Arvorezinha parou de fazer plantões no município de Feliz. “Ele teve um acidente em abril, sendo que perdeu o controle da direção, vindo a parar o carro num terreno adjacente à pista contrária a que ele se encontrava, isso ocorreu na parte da estrada que está em processo de recapeamento”, conta Ana Paula.

 

Os riscos para quem trafega

O vice-prefeito de Ilópolis, Fernando Dapont, reforça o coro daqueles que defendem uma ação rápida para minimizar os problemas das rodovias estaduais que cortam o município. “Vereadores já encaminharam pedido de melhorias e todos estamos atentos, porque a ERS-332, em especial, precisa de uma atenção, pois não tem sinalização e está em péssimas condições”, destaca.

De acordo com Dapont, o problema se agrava, quando se tem o entendimento de que os municípios da parte alta encaminham pessoas doentes para hospitais de Lajeado e Porto Alegre, por exemplo. “É preciso união para que se consiga atingir os objetivos, pois vemos que as máquinas aparecem e logo somem da rodovia”, enfatiza.

 

“Nos sentimos uma bola de pingue-pongue”

A prefeita de Doutor Ricardo, Catea Rolante, diz se sentir responsável pela ERS-332. “São as nossas pessoas que pagam impostos, que trabalham, que se sacrificam, que estão tendo prejuízos. Como somos uma região onde no inverno há muita neblina, estamos muito tristes com a nossa ERS e com a falta de responsabilidade tanto do governo, do Daer e da empresa. Os órgãos têm que fiscalizar. Será que não há nenhuma penalidade para essa empresa que fez tudo isso e deixou a ERS intrafegável? Mesmo não sendo nossa responsabilidade levantamos a bandeira. Nos sentimos uma bola de pingue-pongue, um jogando para o outro e não temos uma resposta concreta que é o trabalho. Eles vêm, iniciam e deixam a gente assim”, ressaltou.

 

Cenci espera melhorias

No retorno à chefia do Executivo, após período de férias, o prefeito de Putinga, Claudiomiro Cenci, enfatiza que não há como deixar as ERS 435 e 332 no estado em que estão. “A gente tem preocupação em deixar as estradas locais com qualidade e as vias de acesso ao município ficam nestas condições.” Ele destaca que já foram feitos diversos pedidos para a realização de operações para tapar os buracos, além de ações mais efetivas. “Estamos no aguardo, porque temos preocupação com os munícipes que passam por estas rodovias e os visitantes, além de que são os caminhos para o escoamento da produção local”, ressalta.

 

ERS-435, entre Ilópolis e Putinga

O trajeto asfáltico que liga o município de Ilópolis a Putinga, pela ERS-435, também está em situação precária e acaba dificultando o tráfego de veículo, causando perigo de acidente e prejuízos materiais aos motoristas. Além do desnível do asfalto em função de reparos antigos, os buracos abertos e a falta de roçada, geram transtornos aos que trafegam por ali.

 

ERS-332, entre Arvorezinha e Soledade

Outra via que está precisando de reparos é a ERS-332, entre Arvorezinha e Soledade. Inaugurada em 2010, somente no início deste ano a ponte que liga os dois municípios, recebeu as cabeceiras. Antes disso, o trecho já estava deteriorado. Agora, com o aumento no trafego de veículos e caminhões pesados, mais buracos surgiram.

 

Sem respostas

A redação do Eco Regional entrou em contato com a assessoria de imprensa do Daer ainda na terça-feira, 10. Porém, até o fechamento desta matérias não obteve respostas.

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