Novas regras dificultam a produção de leite

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Normativas 76 e 77, que entram em vigor em maio, criam mecanismos para garantir maior segurança para o produto, mas aumentam o custo dos produtores

“Tudo bem ter mais exigência e qualidade, mas que seja remunerado por isto, reconhecido pelo que é investido. Hoje, o custo sobe, mas o preço pago ao produtor continua o mesmo.” A opinião de Maciel Alba, de Anta Gorda, se repete entre os produtores de leite da região. Eles se deparam com outro problema, que pode dificultar a manutenção das propriedades. Entram em vigor, em maio, duas Instruções Normativas do Ministério da Agricultura, que redefinem critérios de higiene, produção e transporte do leite.
Deonelo Baséggio, que integra o setor ao encaminhar o produto da propriedade até as empresas, destaca que caberá ao produtor maior controle quanto à contagem de bactérias e células somáticas. “Há uma apuração muito mais rigorosa no que se refere à sanidade, com testes para verificação de doenças, por exemplo”, afirma.
Ele entende, no entanto, que um dos maiores diferenciais impostos pelas novas regras é a questão da temperatura do produto. Na propriedade, deve ser mantido em 4ºC, chegando, ao máximo, em 7ºC. “Atualmente, chega com temperatura maior, até pela distância que irá percorrer, e não tem como baixar na propriedade, porque acabaria congelando e isto reduziria o valor nutricional do produto”, alerta.
Há 36 anos no setor, Baséggio recorda que já viu várias atualizações e que, com o tempo, acabam criando as condições necessárias para atender à legislação, mas que isto representa um risco inicial. “Primeiro foi a necessidade de um resfriador, depois de imersão, foram mudando as formas para a melhor qualidade de produto, mas a atual parece ser impossível de se atingir”, frisa.
Por outro lado, ele entende a busca pela qualidade por parte do Ministério da Agricultura. “Ir contra esta ideia é ir contra a gente mesmo; nos outros países não se fala mais em buscar qualidade para se produzir. Tem que ter e pronto.”
Na sua área, diretamente, conta que há cuidados extremos com a coleta, com amostras, treinamentos periódicos para motoristas e a preocupação com a busca da qualidade. O fato da região ter um laboratório apto a fazer análises no leite, com sede na Univates, é um facilitador. “Está mais próximo e existe a questão da confiabilidade, que é muito importante.”

Deonelo Baséggio defende mais qualidade, mas acredita que será difícil a implantação das normativas

As normativas
A IN 76 trata das características e da qualidade do produto na indústria. Na IN 77, são definidos critérios para obtenção de leite de qualidade e seguro ao consumidor e que englobam desde a organização da propriedade, suas instalações e equipamentos, até a formação e capacitação dos responsáveis pelas tarefas cotidianas, o controle sistemático de mastites, da brucelose e da tuberculose.
Em relação à identidade e qualidade, no caso do leite cru refrigerado foi mantida a contagem bacteriana máxima de 300 mil unidades por ml e 500 mil células somáticas por mililitro. O produto não deve apresentar substâncias estranhas à sua composição, como agentes inibidores do crescimento microbiano, neutralizantes da acidez nem resíduos de produtos de uso veterinário.
Segundo a responsável pelo Programa Nacional de Qualidade do Leite no Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Dipoa), Mayara Souza Pinto, “as normas têm como objetivo atualizar os critérios de produção e seleção de leite de qualidade, com foco nas boas práticas agropecuárias e na educação sanitária”.
Com o novo regramento, os produtores poderão intensificar o controle na obtenção de leite, aplicando ferramentas de gestão de qualidade nas propriedades, incluindo manejo sanitário, refrigeração e estocagem, qualidade da água, uso racional de medicamentos veterinários, adoção de boas práticas de bem-estar animal.
Produtor de leite em Anta Gorda, Marcos Lodi, entende a busca pela qualidade, mas também reclama dos valores pagos. “Teste de tuberculose e brucelose para nós é rotina, mas é revoltante, porque o retorno é mínimo, e tudo é cobrado do produtor. Todos têm que se adequar a isto ou aquilo. Quais as medidas que garantem a sobrevivência do produtor?”, questiona. Ele acredita que muitos podem parar, o que geraria uma falta de leite. O mesmo pensamento é de Maciel Alba. “Diminuímos a quantidade de animal pela dificuldade que estamos tendo em manter a produção. Estamos partindo para outras áreas, aumentando chiqueiros, área de lavoura com milho e soja”, adianta.

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